sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

Revolução original

Vento….
sopra a voz aguda da dor escondida!
Neve…
congela a pulsação febril camuflada no gelo,
expele o fogo que te consome as entranhas já gastas,
anuncia um novo mundo, idílico,
anuncia um novo sistema político humano
irmanado com o planeta terra, com a vida…

Onde está a revolução original,
se te subjugas, se te demites
se reprimires a tua filosofia, os teus sonhos…

Levanta-te!
Canta as lágrimas que te aprisionam,
a lava que te corrói por dentro em carne viva!

Nem eu nem tu
podemos mudar o mundo,
mas nós, todos…
Eu, tu e os outros!

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

REFUGIADOS

Um sopro húmido de inverno sombrio
corre-me nas veias ocas, roxas de frio…
Canta-me a música de embalar das ondas,
rebentando contra as rochas graníticas,
resfolegando nas proas dos navios de gente
que viajam sem destino, fugindo do abismo…

Abre-se uma clareira entre o mar esculpido de luz…
Terra firma…
… Emerge levantada por sereias noturnas,
esconderijo seguro para acolher almas perdidas
que transbordam alegria, esperança
como pirilampos que mergulham nestes fios de cabelo
com que me cubro durante a gestação das marés.


terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Espelho meu

Espelho, poça de água…. reflexo meu,
o que vejo alaga-me o olhar,
cega-me a visão e o entendimento
que agora viaja no dorso da gaivota solitária
sobre o mar revolto que cospe espuma salgada
contra os rochedos afiados de granito…

Ser quem sou sem saber e não querer,
querer sair de mim para ser outro e voltar a renascer,
projetar-me no firmemente junto das estrelas,
cintilar entre os pirilampos e as gotas de orvalho
e desaguar num lago ausente, sem reflexo!



Zé-ninguém

Deslizo pela face fria,
sou lágrima salgada,
indesejada,
mas precisa para a alma...

Deslizo uma e outra vez
num mundo que me rejeita
mas continuo a minha viagem
à procura de um destino,
de uma nuvem vazia,
de um lar acolhedor
para me aconchegar nesta noite gelada.

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

ESCALADA

Escalo as lágrimas de gelo que se pregam no rochedo imponente,
que sobressai da vegetação silvestre, densa…
Agarro-me a cada estalactite escorregadia, luzidia…
...Afiada...
desenha rasgos de sangue que se cruzam com as linhas da mão,
golpes que se aprofundam na alma do desespero,
mas continuo a subir como a trepadeira que nasceu do chão,
que rasteja pela verticalidade da pedra, da lama…
Quero soprar as nuvens que me tingem a pele de cinza
como o vento que vem da espuma do mar revolto,
como o aguaceiro que empurra a poeira contra a terra seca
e despertar o eclipse lunar que me consome as entranhas.



terça-feira, 4 de outubro de 2016

Lobo

Pupilas dilatadas, pulmões inchados…
Contém, sustém, desliga…
Um passo, uma vida, um amanhã,
um ramo perdido no chão molhado da chuva,
uma flor esquecida num banco de jardim…
A brisa gelada infiltra-se-me nos poros nus…

Pálpebras descaídas levantam-se com o anoitecer…
Expira, liga, liberta,
transforma-te em lobo de olhos claros e pelo escuro…
Corre, respira…
corre, respira…
corre, respira…. E desliga.


segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Sem freio nem destino

Sombras na penumbra do crepúsculo,
o pôr-do-sol tinge-se de púrpura,
o vento escala as estrelas invisíveis do teu olhar,
o meu cabelo esvoaça entre grãos de areia suspensos,
enquanto a espuma branca do mar
me lambe os pés nus, gelados…
São barbatanas da terra de ninguém!

Estendo os braços para te receber,
sem artefactos ou vestes,
apenas pele, sangue, carne, osso…

Escorrem-me lágrimas que queimam,
cobrem-me o corpo roxo, quase inanimado,
mas a alma arde em labaredas,
enquanto não respira esse futuro
claro, transparente
como a água cristalina de uma fonte ainda por descobrir…
                             Ilusão do amanhã sorridente
                             que permanece no eterno desconhecimento humano…

A terra transforma-se em lava
como a pélvis seca se liquefaz no teu tronco…
Cavalgo-te sem freio nem destino….